II
Os olhos
dos agora prisioneiros só encontraram-se com a luz dias depois. Estavam sendo
forçados a caminhar em direção à algum lugar, suas mãos permaneciam amarradas,
e ao entorno deles os guardas de elite faziam a escolta. O lugar fedia, suas
roupas fediam, a umidade criava uma atmosfera insuportavelmente quente e que
cerceava a capacidade respiratória. Depois de dias naquele lugar, a caverna
parecia exercer um efeito claustrofóbico nos rapazes. As paredes de terra eram desformes
e idênticas, sem a devida orientação era impossível se localizar corretamente
ali dentro. O chão, de terra batida, solado e compactado após o constante
trânsito era gélido e escorregadio, a luminosidade provinha basicamente de fungos luminescentes posicionados muito longe um dos outros. Os ordenados
foram coagidos a prosseguir seu caminho. Seguiram pelos corredores por mais
algum tempo, em silencio, em um caminhar fúnebre e desesperançoso.
Houve uma
intensificação da luz quando os três atravessaram a passagem ornada. Sim, a
mesma passagem onde outrora foram capturados. O lugar era diferente, as paredes
eram lisas, trabalhadas, com cuidado e dedicação. O chão era ainda de terra,
contudo possuía uma uniformidade invejável, plano, plenamente nivelado. Algumas
tochas ardiam trazendo visibilidade ao local. Alex observou tudo em volta: O
espaço onde se encontravam possuía estrutura côncava, cerca de 150 metros
quadrados, uma espécie de altar a oeste, decorações nativas espalhadas pelo
salão. Um trono largo e pomposo estava no ponto sul, o “telhado” era recoberto
por uma estrutura esbranquiçada e disforme, teias, enormes e voluptuosas teias.
A lança de
um dos soldados cutucou o bruxo, um fio de sangue escorreu, e ele voltou a
caminhar. Agora eram levados para a parte sul, defronte ao trono. Uma figura
estranha surgiu de uma porta lateral, um insectoide de aparência pífia e
frágil.
- Saudações, Eu sou Alum, servo de Miriápode, porta voz da
rainha e servo da colônia. Vocês são acusados de assassinatos, crime de
desordem, uso não autorizado da força, dentre outros. A rainha os julgará e
determinará vossas punições. - Ele disse em um tom formal.
Os três
olharam ainda sem compreender o que acontecia quando uma figura apareceu. Portadora
de uma beleza estonteante, não era deformada e decrépita como todos aqueles
insetos ali, embora preservasse traços comuns, como sua coroa, roupagem e
armadura, era muito mais semelhante a uma mulher humana que a uma criatura habitante
e governante daquelas cavernas.
- Ajoelhem-se perante a rainha Miriápode ! – Gritou o
porta-voz.
Os guardas
cutucaram os prisioneiros com suas lanças, e tão logo eles se ajoelharam eles
também o fizeram ante sua rainha.
A mulher
caminhou com graça até seu trono, sentou com suas pernas cruzadas e encarou os
decrépitos prisioneiros.
- Vocês são acusados de muitas coisas rapazes... Causaram
grande confusão em meu singelo reino. Humm.... o que eu deveria fazer com
vocês? Alimentar minhas crianças? Separar as partes de seus corpos por ai? Usar
seus ossos para construir ninhos... são tantas coisas... – A criatura comentou
pensando alto.
Os
ordenados a encaram com ar de desafio, se não podiam derrotar todos ali,
ao menos sabiam quem comandava aquele lugar, e quem mata o rei, reina. (Ou
causa a ira dos súditos e acabam mortos de forma desesperadora, mas, eles
torciam pela primeira opção).
- Vocês querem dizer algo? Falem, aproveitem que sei o
idioma humano. Porque estão aqui? O que querem em minhas terras? Porque
deveriam viver?
Illikan e
Stummp voltaram seus olhos para Alexander.
- Majestade – O cavaleiro iniciou – Nos perdemos na
floresta, e acabamos por acidentalmente penetrar em vosso reino. Não foi de
nossa intenção causar tanta desordem, porém, para nos defendermos, e
salvaguardar nossas vidas, acabou sendo feito. Pedimos perdão pelo que foi
causado. – Ele disse calmamente com um tom culto e mui educado.
- Pois bem, estrangeiro, compreendo sua situação – A rainha
disse e trouxe certa esperança aos prisioneiros – Todavia, se os deixar ir,
terei minha autoridade questionada, vocês cometeram crimes, e devem portanto
pagar por eles. Dura lex, sed lex.
- Majestade, creio que possamos ser uteis de outra forma. Se
assim proceder, nosso rei virá, e trará sobre vossas terras desgraça e
destruição muito maior que a que causamos – Alexander disse agora com certo ar
de prepotência.
A rainha o encarou por um minuto.
- Seu rei não tem poder aqui. – ela disse com desprezo e
raiva.
O bruxo se calou, Illikan
e stummp o fuzilaram com o olhar como quem diz “ Seu burro filho da
puta, não podia dizer algo melhor?”
A rainha os olhou:
- Não sei quem é vosso rei, sei que ele os abandonou, mais
que isso, eu sou vossa rainha, é para mim que vocês se ajoelham no momento. –
ela disse sorrindo prepotente.
Alexander sorriu.
- Eu me ajoelho sim, mas não é para vós. Deixe-nos ir agora.
Esse é meu ultimo aviso. A escuridão reina em todo o lugar, e o vazio engole
todos os mundos – ele falou fechando os olhos.
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